05 fevereiro 2021

O medo dos outros

As vezes eu me pego pensando na minha deficiência, não consigo correr, não consigo pular, minha mão treme que as vezes parece um liquidificador e ando bem devagar, pra não ficar tonta e cair. Se tivesse um apocalipse zumbi, eu seria a primeira a morrer.

Tudo bem, isso foi meio dramático. Mas fico pensando nisso, em uma situação hipotética, que eu necessitasse de força bruta, ou simplesmente correr para salvar a minha vida, provavelmente eu não estaria mais aqui.

Da um certo medo pensar nisso. Mas só tenho 29 anos, vou viver com esse medo o resto da minha vida (que espero que seja longa)?

Assim que fiz as cirurgias, minha mãe não queria que eu saísse sozinha de casa, porque se acontecesse alguma coisa na rua, tinha alguém para me ajudar. Eu adiava! Entendo a preocupação, mas cadê a autonomia? Além de não ser uma coisa muito prática. Onde ia enfiar alguém que me ajudasse todo dia? Eu quebraria um pedacinho do dedo, colocaria no chão e dele surgiria meu mordomo particular? Ficava me imaginando tentando atravessar a rua e ele me dando a mão, que nem uma velinha.

Tudo bem que em alguns lugares, fico meio receosa, torço pra ninguém olhar pra mim e tento andar rápido (doce ilusão). Agradeço por morar em um lugar que é mais tranquilo, plano, que eu consigo andar sozinha. Minha mãe mora em um lugar mais potencialmente perigoso, mas eu não vou deixar de fazer as minhas coisas sozinhas quando eu vou lá.

Acho que não deixei esse medo se apoderar de mim, não queria e ainda não quero viver reclusa o resto da minha vida. Que seja para ser comida por uma horda de zumbis. Vou andar nas ruas, trabalhar fora, sair, me divertir, sozinha!

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